sábado, 24 de maio de 2014
O IRMÃO MAIS VELHO – II
Vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Lucas 15:30
O discurso do irmão mais velho, na parábola do filho pródigo, é o extravasar de rancor e rebelião reprimidos. A festa, a essa altura, havia parado. A música e a dança tinham cessado. Pesado silêncio paira no ar. Os convidados esperam uma violenta reação paterna. Contudo, pela segunda vez no dia, o pai se humilha. Sua resposta explode em profunda paciência. Ele poderia silenciar o filho e fazê-lo entrar. Se necessário com a ajuda de alguns servos, caso sua autoridade não fosse suficiente.
Mas o pai esquece a omissão de um tratamento respeitoso, a amargura, a arrogância, o insulto, a distorção dos fatos e as acusações injustas. Ao contrário, não há nenhuma crítica ou rejeição em sua resposta. Em agudo contraste, ele inicia com um título afetivo e conciliatório: "filho". Esse pai ansiou ter os dois filhos em casa na sua festa de celebração. Ele afirma que os direitos de seu filho mais velho estão plenamente garantidos, mesmo quando a graça foi estendida ao pródigo. O pai garante: "Tudo o que é meu é teu" (Lc 15:31). "O retorno do irmão não afeta em nada sua posição." Gentilmente, o pai o lembra de que o pródigo é seu irmão, e, por isso, ele deveria agir como membro da família.
A inesperada oferta de amor diante do ato de pública humilhação tem sua contrapartida na cruz. O Deus descrito por Jesus na parábola transcende a divindade mesquinha, vingativa e autoritária que é fruto de nossa criação. O Deus de Jesus não necessita possuir nada, nem controlar ninguém. O que Ele tem Ele oferece. Para Ele, a única resposta satisfatória é aquela que brota do amor. O irônico na parábola é que, quando a cortina desce sobre o drama, o filho mais novo, que estava fora, termina dentro da casa do pai. O mais velho, que pretendia estar dentro, permanece fora. O filho mais novo, o "mau caráter" da narrativa, entra na festa de seu pai, enquanto o "bom", o "santo", permanece fora, alienado.
Essa é uma séria advertência às vítimas do legalismo, os que estão fora da lei enquanto pretendem guardá-la, os que se julgam "muito bons". Membros da igreja com a "síndrome do irmão mais velho", justos e superiores aos próprios olhos, correm o risco de serem apenas escravos de seu personagem, sem serem pessoas autênticas. Eles se esquecem de que, perante Deus, "o que fazemos" é menos importante do que o motivo "por que fazemos".
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