sábado, 31 de maio de 2014

INSTRUMENTOS DA GRAÇA

Cantou o galo. Então, voltando-Se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes Me negarás, antes de cantar o galo. Lucas 22:60, 61

No contexto de Sua última noite, Jesus faz uma solene advertência ao arrogante discípulo: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça" (Lc 22:31, 32). O que estaria Jesus dizendo com essas palavras enigmáticas? Confuso, Pedro tenta articular uma resposta, afirmando sua lealdade, sugerindo que Cristo estava errado: "Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte" (v. 33). No próximo verso, Jesus menciona a tríplice traição, antes que o galo cantasse naquela noite (v. 34).


A sequência dos eventos é rápida. Então, encontramos Pedro ao redor do fogo aceso no pátio da casa de Caifás. Distante, ele testemunha em silêncio o que fazem com o Mestre. As chamas da fogueira dançam na noite e iluminam sua face. "Este é um deles", diz uma voz rouca. O atônito discípulo muda de lugar. O clima de morte paira no ar. Duas outras vezes ele é reconhecido. Finalmente, Pedro não apenas O nega, ele O amaldiçoa. A negação de Pedro estala na face de Cristo pior que as bofetadas de Seus inimigos.


Nesse instante, depois de mentir e amaldiçoar, quando sua torpeza e deslealdade estão consumadas, "estando ele ainda a falar" (v. 60), ouve soar nas trevas da fria madrugada o canto de um galo, como o toque de clarim longo e melancólico. Uma espada lhe atravessa a alma.


Agora observe a sequência imediata no verso 61: "Então, voltando-Se o Senhor, fixou os olhos em Pedro." Jesus usa dois instrumentos aparentemente insignificantes para redimir o fracassado discípulo: um galo e um olhar. O galo, uma avezinha comum, teve só uma função: fazer Pedro olhar para Jesus. Pense nas circunstâncias: amarrado, com os lábios inchados, debilitado, em que pensava Ele? Em não expor Pedro. Jesus não poderia dirigir-Se a Seu discípulo ou chamá-lo. Isso significaria colocar sua vida em risco, além de evidenciar sua vergonha e traição. Nesse momento não há nenhuma palavra, apenas um olhar no qual Jesus concentra toda a graça do Universo. Aquele olhar queima Pedro por dentro. Ele sente que, embora tenha falhado, sendo vergonhosamente desleal, nada é capaz de fazer o Senhor deixar de amá-lo.

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